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Por que o cristão não pula o Carnaval?

  • indaiatubapibi
  • 12 de mar.
  • 5 min de leitura

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Acabamos de presenciar mais um Carnaval no Brasil. Alguns aproveitam a data para descansar, mas um grande número ainda prefere festejar em sambódromos, ou em blocos de rua.

 

Uma questão que me ocorreu nesse Carnaval é que a maior parte das pessoas que festejam a data se identificam como cristãos. Mesmo aqueles que estão em grandes sambódromos como o da Sapucaí, ou do Anhembí, se perguntarmos se são cristãos, tenho certeza de que um grande número responderá positivamente.

 

Diante disso, pergunto: a festa do Carnaval é coerente com o cristianismo? Se não, por que não? Por que o cristão não pula o Carnaval?

 

Aqui vão duas razões pelos quais o cristão não pula o Carnaval. Claro que existem várias outras. Mas aqui vão duas que entendo serem suficientemente esclarecedoras.

 

1.   O cristão não pula o Carnaval porque este é “Pão e Circo”

 

Na antiga Roma, os imperadores organizaram as festividades no Coliseu, com vistas à conquista do coração e mente do povo, uma estratégia que ficou conhecida como “Política do Pão e Circo”. Nessas festividades, o prato principal era o entretenimento por meio da degradação humana expressa na violência dos gladiadores.

 

Ainda hoje o Coliseu perdura em Roma, ainda que em escombros, como um memorial de onde a degradação humana pode chegar. Por outro lado, esses escombros escondem a realidade de que a política do pão e circo permanece, ainda que em outras roupagens.

 

O Carnaval é uma dessas roupagens herdadas da velha Roma que ainda está muito viva no Brasil. Em nosso país, a saúde é um caos, a educação uma vergonha, a segurança não existe, a miséria continua matando milhares de pessoas e o álcool e as drogas são parte do cotidiano. O governo totalmente perdido em sua ideologia caduca, tudo o que consegue fazer é tentar silenciar a oposição e dar “pão e circo” para o povo entorpecido pela expressão total do hedonismo de nossa época.

 

É óbvio que o discurso das autoridades é que o turismo fomentado pela festa carnavalesca é um bom negócio. De acordo com a Secretaria Estadual de Turismo do Rio de Janeiro, o carnaval no Rio de Janeiro teve mais de 8 milhões de foliões que movimentaram R$ 6,5 bilhões, sendo cerca de R$ 5 bilhões apenas na capital fluminense. O subsecretário de Turismo, Nilo Félix, disse o seguinte:

 

“Recebemos turistas de 160 países. Foi um carnaval atípico positivamente em relação ao ano passado. Tivemos uma ocupação hoteleira de 98,6%, também histórica. No interior do estado, também tivemos uma ocupação histórica de 87% no setor de hotéis” [1].

 

Que ótimo então, não é? É para aplaudir? É sério? Então, com todo o investimento desse recurso na melhoria de vida da população, o que vemos é um dos Estados mais ricos de nosso país, com menor índice de pobreza e taxas de violência; seus índices de saúde e educação se igualam a países ricos do mundo!!!! Sendo assim, viva o Carnaval, não é mesmo?!?!?!

 

Só que não!!! A verdade é que o culto à bebedeira, drogas, violência e promiscuidade, gera uma conta impagável: doenças, destruição de famílias, gravidez indesejada e abortos, corrupção, entorpecimento da realidade político/social; uma conta social do Brasil que é largamente festejada por aqueles que lucram com ela: bicheiros, milicianos, traficantes[2], políticos e veículos de imprensa.

 

E o povo? Muitos fazem justiça em ser chamados de “mané” porque se deixam idiotizar pelo “pão e circo”.

 

Isso me faz lembrar de Agostinho. Em sua época, muitos do povo também se deixavam iludir pela política do “pão e circo”. Em seu livro Confissões, Agostinho conta de seu amigo Alípio. A princípio era averso ao que acontecia no Coliseu. Entretanto, se deixou levar pelas amizades e foi assistir a um “espetáculo”. Veja como Agostinho narra a ocasião:

 

Quando chegaram à arena e acharam um lugar para se sentar, o recinto inteiro já vibrava com aquela diversão selvagem. Ele, porém, fechando a passagem da visão, proibiu a mente de vaguear entre aquelas perversidades. Quem dera também tivesse fechado os ouvidos! Aconteceu que, durante uma luta, quando um gladiador caiu, ele se impressionou fortemente com o estrondoso alarido de toda a multidão e foi dominado pela curiosidade. Como se estivesse preparado para desprezar aquilo e mostrar-se superior ao que quer que fosse, mesmo vendo, abriu os olhos: um golpe ainda mais profundo que aquele recebido pelo corpo do gladiador feriu sua alma, e ele sofreu uma queda muito mais lamentável. Ante a queda do lutador, houve um estrondoso alarido, que lhe penetrou os ouvidos e lhe abriu os olhos, possibilitando o golpe que derrubou sua alma, mais ousada que resoluta, enfraquecida por ter depositado em si mesma a confiança que devia ter depositado em ti [Deus]. Pois no instante em que viu aquele sangue, Alípio absorveu aquela selvageria. Em vez de os desviar, ele fixou os olhos, bebendo em delírio, inconscientemente, deleitando-se com a luta criminosa, inebriado com aquela diversão sangrenta. Ele já não era o homem que entrara naquele recinto: era só mais um entre a multidão à qual se juntara; isso mesmo, um verdadeiro associado daqueles que o levaram para lá.[3]

 

 

Alípio ficou inebriado com aquela diversão sangrenta. Assim está o nosso povo com festas como o Carnaval!

 

Por que nós cristãos não pulamos o Carnaval? Porque somos dos poucos que ainda não se deixam levar pela política do “pão e circo” (ainda que alguns de nós estejam bebendo desse delírio!!). Não nos deixamos levar porque preferimos ouvir as Escrituras: “E não vos amoldeis ao sistema deste mundo, mas sede transformados pela renovação das vossas mentes, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Rm 12.2).

 

 

2.   O cristão não pula o Carnaval porque a carne não deve ser celebrada

 

Existem aqueles que contra-argumentam dizendo que isso é radicalismo. Para estes, o cristão pode participar de festas como o Carnaval porque ele é livre para fazer o que quiser.

 

Bem, o Apóstolo Paulo combateu veementemente essa ideia. Ele disse que a liberdade cristã não é licença para a libertinagem (Gl 5.13-15). 

 

Além disso, a carne não é para ser festejada pelo cristão (Carnaval), mas crucificada (Gl 5.24). Aos Gálatas, Paulo afirmou:

 

“As obras da carne são evidentes, a saber: imoralidade, impureza e indecência; idolatria e feitiçaria; inimizades, rivalidades e ciúmes; ira, ambição egoísta, discórdias, partidarismo e inveja; bebedeiras, orgias e coisas semelhantes a essas, contra as quais vos previno, como já vos preveni antes: Os que as praticam não herdarão o reino de Deus.” (Gl 5.19-21).

 

Veja, ao descrever as obras da carne, o Apóstolo afirma que aqueles que as praticam não herdarão o Reino de Deus. Ou seja, assim como o voo conjunto de urubus sinalizam que ali tem alguma coisa morta, as obras da carne sinalizam para quem não herdará o Reino de Deus.

 

Em outras palavras, uma vida entregue à devassidão libertina (como fomentado no Carnaval), não é a expressão da liberdade que temos em Cristo. Ao contrário, é a expressão de alguém que ainda vive em escravidão, por não confiar exclusivamente nos méritos de Cristo. E assim, por isso, não herdará o Reino de Deus.

 

Sendo assim, o cristão não pula o Carnaval porque esta é a celebração daqueles que estão mortos em seus delitos e pecados (Ef 2.1) e caminham para a morte eterna.


pr. NelsonGalvão


Referências


[2] Em notícia divulgada pelo Estadão (19/02/13), o Ministério Público afirmou que apenas três agremiações não sofrem influência de bicheiros, milicianos ou traficantes.

 

[3] Agostinho. Confissões: Livros de 1 a 10 (Clássicos MC) (Portuguese Edition) (pp. 121-122). Editora Mundo Cristão. Edição do Kindle.

 

 
 
 

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